
Fui com ela a Ankara, anos atrás, a um encontro de escritoras mediterrânicas. Sempre que tentava, por cortesia, ajudá-la a entrar nas escadas rolantes ou a sair dos táxis, prevenia-me: «Quando precisar peço.» Uma força! Andámos por ali, apoiadas uma na outra, sem perceber muito bem o convite. Pelo sim, pelo não, eu tinha preparado uma palestra em inglês, durante duas semanas, com o título desopilante de «How the main transformations of the 20th century are reflected through the changes observed in the discourses of the women writers». Falava na Mansfield, na Mistral e na Woolf, cada uma mais desgraçada do que a outra, no movimento de libertação das mulheres e no feminismo, na Cabana do Pai Tomás e ainda de como Harriet Stowe, sua autora, com aquele ar frágil, conseguiu tornar-se o símbolo e rastilho da luta abolicionista. Mais: recuei até aos índios Carrie, que obrigavam as adolescentes menstruadas a permanecerem encerradas em casa durante o período, não fossem os seus pés contaminar o rio. Esforcei-me, juro que sim. No fim, a escritora turca disse-me: «Não percebi uma única palavra.» Ia desmaiando. Lembro-me dessa, da italiana e da grega, estas com classe. O problema esperava-nos na judia, uma beldade cinematográfica, e na árabe, uma morena capitosa. Tínhamos de ler textos nossos, o que é sempre indigesto. Um dia, a judia leu um poema sobre aves e flores e a árabe explodiu: «É espantoso como consegues escrever sobre passarinhos enquanto o teu povo chacina o meu!» Foi um sarilho e hostilizaram-se o tempo inteiro, connosco aterradas, temendo o pior. Uma tarde, a embaixadora de Israel entrou pela nossa sala adentro e humilhou a árabe à nossa frente - alguém a avisara do atrevimento da rapariga que, sem cautelas, nos entregava panfletos incendiários ao pequeno almoço. Numa discussão, a judia usou a expressão «my country» e a outra sobrepôs: «you mean MINE!» - por segundos, pensámos que ia sacar da mala uma metralhadora. Não aconteceu, mas por pouco: a tensão era horrível. (Correspondi-me durante uns tempos com a judia, mas tive pena de perder o contacto da árabe. Um dia, perguntei-lhe se namorava e ela olhou-me incrédula: «Mas como? Se a nossa vida é a guerra?») Para nos distraírmos, quisemos as duas gastar dinheiro, a Agustina e eu, mas foi impossível; à data, passeando por aquela capital desenxabida - 'tou igual à Maitê - não encontrámos um único comerciante que falasse inglês. A Agustina impaciente: «Sabe? Vim mais para comprar tapetes...» Conseguiu com a ajuda do primeiro secretário português, que nos levou a um shopping: trouxe três para o quarto e uma ou duas jóias verdadeiras, na intenção de oferecê-las à filha. Lembro-me agora, foi no Natal. No fim, decretou: «Pensando bem não dou nada, ficam para mim!» Ali: tão natural como a sua sede! Havia palestras de manhã e jantares à noite; despachava-se sempre antes da hora e vinha para o meu quarto ver-me escolher roupa e pintar-me. Eu era divorciada; ela, uma mulher que escolhera o marido por um anúncio de jornal e acertaria até hoje. Contou-me - e conto, pois também o conta - que entre as muitas respostas recebidas escolheria o que primeiro a beijasse - foi o Alberto Luís, um advogado amável. «Na boca?», perguntei chocada. «Tá doida», riu-se ela. Hoje há festejos no CCB, mas fico por casa.