Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

 

Fui com ela a Ankara, anos atrás, a um encontro de escritoras mediterrânicas. Sempre que tentava, por cortesia, ajudá-la a entrar nas escadas rolantes ou a sair dos táxis, prevenia-me: «Quando precisar peço.» Uma força! Andámos por ali, apoiadas uma na outra, sem perceber muito bem o convite. Pelo sim, pelo não, eu tinha preparado uma palestra em inglês, durante duas semanas, com o título desopilante de «How the main transformations of the 20th century are reflected through the changes observed in the discourses of the women writers». Falava na Mansfield, na Mistral e na Woolf, cada uma mais desgraçada do que a outra, no movimento de libertação das mulheres e no feminismo, na Cabana do Pai Tomás e ainda de como Harriet Stowe, sua autora, com aquele ar frágil, conseguiu tornar-se o símbolo e rastilho da luta abolicionista. Mais: recuei até aos índios Carrie, que obrigavam as adolescentes menstruadas a permanecerem encerradas em casa durante o período, não fossem os seus pés contaminar o rio. Esforcei-me, juro que sim. No fim, a escritora turca disse-me: «Não percebi uma única palavra.» Ia desmaiando. Lembro-me dessa, da italiana e da grega, estas com classe. O problema esperava-nos na judia, uma beldade cinematográfica, e na árabe, uma morena capitosa. Tínhamos de ler textos nossos, o que é sempre indigesto. Um dia, a judia leu um poema sobre aves e flores e a árabe explodiu: «É espantoso como consegues escrever sobre passarinhos enquanto o teu povo chacina o meu!» Foi um sarilho e hostilizaram-se o tempo inteiro,  connosco aterradas, temendo o pior. Uma tarde, a embaixadora de Israel entrou pela nossa sala adentro e humilhou a árabe à nossa frente - alguém a avisara do atrevimento da rapariga que, sem cautelas, nos entregava panfletos incendiários ao pequeno almoço. Numa discussão, a judia usou a expressão «my country» e a outra sobrepôs: «you mean MINE!»  - por segundos, pensámos que ia sacar da mala uma metralhadora. Não aconteceu, mas por pouco: a tensão era horrível. (Correspondi-me durante uns tempos com a judia, mas tive pena de perder o contacto da árabe. Um dia, perguntei-lhe se namorava e ela olhou-me incrédula: «Mas como? Se a nossa vida é a guerra?») Para nos distraírmos, quisemos as duas gastar dinheiro, a Agustina e eu, mas foi impossível; à data, passeando por aquela capital desenxabida - 'tou igual à Maitê -  não encontrámos um único comerciante que falasse inglês. A Agustina impaciente: «Sabe? Vim mais para comprar tapetes...»  Conseguiu com a ajuda do primeiro secretário português, que nos levou a um shopping: trouxe três para o quarto e uma ou duas jóias verdadeiras, na intenção de oferecê-las à filha. Lembro-me agora, foi no Natal. No fim, decretou: «Pensando bem não dou nada, ficam para mim!» Ali: tão natural como a sua sede!  Havia palestras de manhã e jantares à noite; despachava-se sempre antes da hora e vinha para o meu quarto ver-me escolher roupa e pintar-me. Eu era divorciada; ela, uma mulher que escolhera o marido por um anúncio de jornal e acertaria até hoje.  Contou-me - e conto, pois também o conta - que entre as muitas respostas recebidas escolheria o que primeiro a beijasse - foi o Alberto Luís, um advogado amável. «Na boca?», perguntei chocada. «Tá doida», riu-se ela.  Hoje há festejos no CCB, mas fico por casa. 



Rita Ferro | link do post | comentar

14 comentários:
De fugidia a 15 de Outubro de 2009 às 07:10
Bom dia!
(ia começar a escrever estas palavras mais abaixo quando me saiu do nada esta prosa que me proporcionou o primeiro sorriso do dia - que ainda tenho sono, apesar de ter acordado tarde :-D)


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 09:36
Querida Fugidia, é bom partilhar consigo.


De imprevistoseacasos a 15 de Outubro de 2009 às 09:15
Texto delicioso, Rita.
Lembra-me uma experiência muito pessoal de tentar reunir especialistas de História de Espanha e Portugal, onde o consenso foi impossível, pois todos esbarravam na sua versão da Batalha de Aljubarrota.
À escala, é fácil perceber que por vezes o acordo parece impossível quando o interesse pessoal e o orgulho despropositado falam mais alto...
Quanto à Agustina ela merece o consenso: é única, é uma força. Parabéns para ela e um bom dia para ti!

Fernanda


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 09:38
Fernanda! Estive no outro dia em Aljubarrota, em dia de efeméride, para perceber isso tudo. Sabe? A coisa evoluiu. Estavam galegos presentes, mas nenhum refutou :-))


De Margarida a 15 de Outubro de 2009 às 13:23
Este texto é um filme.


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 13:41
«Não há uma resposta modesta» - disse o Ben Kingsley, quando lhe perguntaram por que razão o teriam escolhido para fazer de Gandhi... LOL Querida Margarida!


De Margarida a 15 de Outubro de 2009 às 13:52
E estou a abster-me de mencionar (seja onde for) a reportagem à 'Caras'...
Ando nas nuvens.


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 14:01
Pfffff...


De Margarida a 15 de Outubro de 2009 às 14:09

(isto não é fácil de 'explicar'..., never mind)


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 20:22
Percebi mas disfarcei, Margarida:-))


De Raúl Mesquita a 15 de Outubro de 2009 às 19:38
Hear, hear! É lindo!


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 20:21
(Vá lá, não embirrou...) LOL


De patti a 15 de Outubro de 2009 às 15:15
Que emoções extraordinárias, Rita. Estamos tão longe, nós portugueses, disso tudo ...

Já viu a ficção que poderá advir daí?


De Rita Ferro a 15 de Outubro de 2009 às 15:43
Já. Mas depois esqueço-me :-))


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